Amor de Perdição
  notícias I especiais I crónicas I base de dados I festivais I roteiro
ficha técnica

Título original:
Amor de Perdição

Origem:
Portugal

Duração:
262 min.

Local de Estreia:
Cinema Quarteto (Lisboa) - 25 de Novembro de 1979

Realização
Manoel de Oliveira

Produção
IPC - Instituto Português de Cinema
Tóbis Portuguesa
RTP - Radiotelevisão Portuguesa
CPC - Centro Português de Cinema
Cinequipa

Obra Original
Camilo Castelo Branco

Argumento
Manoel de Oliveira

Actores
Ruy Furtado
Henrique Viana
Manoel de Oliveira
Lia Gama
Maria Barroso
Duarte de Almeida
Henrique Espírito Santo
Manuela de Freitas
António S. Lopes
Adelaide João
Maria Dulce
Ricardo Pais
Adamastor Duarte
Cristina Hauser
Elsa Wallenkamp
António J. Costa
Vanda França
Manuela de Melo
João César Monterio

Dir. Fotografia
Solveig Nordlund
Manuel Costa e Silva

Decoração
António Casimiro

Dir. Som
João Diogo
Carlos Alberto Lopes

Misturas
Luís Barão

Sonoplastia
Luís Barão

Música
João Paes

Dir. Produção
Henrique Espírito Santo
Marcílio Krieger
António Lagrifa

Interiores
Tóbis Portuguesa

Exteriores
Porto
Coimbra
Viseu - Quinta de S. Miguel

Lab. Imagem
Tóbis Portuguesa

Estúdio Som
Valentim de Carvalho

Financiamento
Fundação Calouste Gulbenkian

Distribuição
V.O. Filmes
Ver Filmes

negativo:
16 mm

som:

base de dados
filmes

 

Amor de Perdição de Manoel de Oliveira (Col. Cinemateca Portuguesa)
Longa Metragem; 1978
Amor de Perdição (1978)
de Manoel de Oliveira
 

com    António Sequeira Lopes (Simão Botelho), Cristina Hauser (Teresa de Albuquerque) (realizador), Elsa Wallenkamp (Mariana), António J., Costa (João da Cruz), Henrique Viana (Tadeu de Albuquerque), Maria Dulce (D. Rita Caldeirão) e Ruy Furtado (Domingos Botelho).

"Amor de Perdição" de Manoel de Oliveira (Col. Cinemateca Portuguesa)  

Sinopse:

No início do século XIX, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, pertencendo a duas famílias rivais, amam-se apaixonadamente. Teresa está prometida a um primo seu, Baltazar Coutinho. A jovem decide entrar num convento. Simão mata Baltazar e é preso. O pai, magistrado, recusa-se ajudá-lo por não lhe perdoar amar a filha do seu pior inimigo. Das respectivas celas, Simão e Teresa correspondem-se por escrito, com a ajuda de Mariana (uma jovem criada que ama secretamente Simão).

Condenado à morte, Simão indultado e enviado para o exílio. No Porto, embarca para a Índia e despede-se de Teresa que, ao longe, lhe acena um último adeus, pelas grades da janela da sua cela, na torre do convento. Teresa cai morta nos braços da camareira. Simão morre na viagem, poucos dias depois. No funeral, a bordo, Mariana, que o seguia para o desterro, atira-se ao mar para se agarrar ao seu cadáver e com ele morrer.

Observações:

Adaptação do romance homónimo de Camilo Castelo Branco. Terceira versão deste romance na história do cinema português, depois da de Georges Pallu ("Amor de Perdição"), em 1921, e da de António Lopes Ribeiro, em 1943.

Terceiro filme da "tetralogia dos amores frustrados" que incluí, ainda, "O Passado e o Presente", "Benilde ou a Virgem-Mãe" e "Francisca".

Vencedor do Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema da Figueira da Doz, em 1979.

"Filme produzido e distribuido comercialmente em 16 mm. Existe uma versão ampliada para 35 mm, efectuada pela Cinemateca Portuguesa aquando da preservação da obra.

Paralelamente à versão para distribuição cinematográfica, foi produzida uma versão para televisão, em episódios, com metragem total de 3149 mt - 287 minutos. O negativo desta versão, em 16 mm, é composto por tomadas de vista alternativas em relação à obra cinematográfica e engloba prólogos aos diferentes episódios, exclusivamente filmados para a versão televisiva."

José de Matos-Cruz, in Cais do Olhar, ed. Cinemateca-Portuguesa-Museu do Cinema, 1999.

"...a Teresa é sobretudo dissimulação. Ela simula à espera que o pai morra, porque sabe que enquanto o pai for vivo não permite. Portanto, espera que ele morra para depois poder ser feliz. Há uma dissimulação, de que de resto o Camilo fala. A dissimulação é uma qualidade muito própria da mulher... Um atributo...

atributo não... Qualidade!"

Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa,1989.

"Amor de Perdição é um diálogo entre o visível e o imaginário, entre o perceptível e o imperceptível.

Adaptado de um célebre romance português do Século XIX com o mesmo título, de Camilo de Castelo Branco, Amor de Perdição é um verdadeiro workshop de ideias acerca da incestuosa relação entre o romance e o cinema e acerca das várias possibilidades de adaptações literárias. Muitos dos ditos aspectos de vanguarda do filme vêm precisamente dessa reflexão, graças à qual cada cena acaba por se tornar numa solução fílmica de um desafio literário".

Jonathan Rosembaum, The Masterpiece You Missed, in Soho News, 3 Junho, 1981.

"Em 1978 Manoel de Oliveira completou "Amor de Perdição", projecto em que trabalhava desde 1976. Com 4 horas e 20 minutos de duração, era o mais arriscado projecto de Oliveira, que se decidiu por uma "adaptação total" do romance, ou seja, uma adaptação em que nenhuma palavra fosse excluída. O que os actores não diziam, foi confiado a duas vozes off: a do condutor da narrativa (a que Oliveira chamou, em vez de relator, delator), e que avança sobre a narrativa, e a que Oliveira chamou Providência. Elas dominam a série de "quadros vivos" pasmosos com que Oliveira imobilizou e movimentou os personagens de Camilo, mais do que nunca fantomáticos e mais do que nunca joguetes da fatalidade que tanto se abate sobre eles.

Foi a partir deste filme que Oliveira desenvolveu a sua teoria do cinema como meio audiovisual para fixar o teatro, conferindo à representação a suprema instância. E, aos 70 anos, surpreendeu tudo e todos com uma das mais radicais abordagens de adaptação literária alguma vez tentadas. O velho sonho de Mankiewicz de um filme que pudesse exprimir o passado e o presente simultâneamaente foi, pela primeira vez, cumprido nesta obra, dominada pela magia do verbo e pela maestria absoluta da composição dos planos que, mais do que qualquer outra, deu presença e ausência a toda a tradição romântica portuguesa.

Mas "Amor de Perdição" foi em Portugal um filme de perdição. Apresentado primeiro (devido a imposições da RTP que parcialmente o subsidiara) na Televisão, numa série de seis episódios, as reacções foram explosivas, o que parcialmente até se pode perceber, pois nenhuma estética era mais alheia à estética televisiva do que a deste filme (ainda por cima rodado a cores e projectado a preto e branco, pois não havia, à época, televisão a cores em Portugal). Falou-se de atentado a Camilo, de ultraje à literatura portuguesa, perguntou-se como é que o homem que fizera "Aniki-Bóbó" fazia agora "Aniki-Gágá". Raríssimos sairam em defesa do filme até que, em 1979, este foi apresentado no estrangeiro e objecto de universal aclamação.

Esta começou em Itália, em 1977, quando alguns filmes de Oliveira foram exibidos na Rassegna del Cinema Portoghese, em Bolonha, e onde "Benilde" foi alvo de entusiástica recepção. Em 1978, continuou numa retrospectiva em Florença e em Roma, que já incluía "Amor de Perdição". "Benilde" e "Amor" foram comprados pela distribuição italiana e Oliveira foi finalmente reconhecido como um dos maiores cineastas vivos.

Em 1979, chegou a hora de Paris quando o distribuidor Paulo Branco o lançou no cinema Action-Republique que então dirigia. O Monde de-lhe honras de primeira página, pouco depois de o Festival de Roterdão o ter também exibido.

Em Portugal, começou a desorientação. Houve quem afirmasse que se tratava de "uma campanha paga" (insinuou-se que pela Gulbenkian), houve quem continuasse a tocar a velha tecla dos críticos loucos dos "Cahiers du Cinema". Mas o que é certo é que, quando ofilme se estreou nas salas de Lisboa, em Novembro de 1979, muita gente virou de bordo e descobriu na obra os méritos que lhe havia negado no ano anterior."

João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991.

 

 
Associação para a Promoção do Cinema Português