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Sinopse:
No início do século XIX, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque, pertencendo
a duas famílias rivais, amam-se apaixonadamente. Teresa está prometida a um
primo seu, Baltazar Coutinho. A jovem decide entrar num convento. Simão mata
Baltazar e é preso. O pai, magistrado, recusa-se ajudá-lo por não lhe
perdoar amar a filha do seu pior inimigo. Das respectivas celas, Simão e
Teresa correspondem-se por escrito, com a ajuda de Mariana (uma jovem criada
que ama secretamente Simão).
Condenado à morte, Simão indultado e enviado para o exílio. No Porto,
embarca para a Índia e despede-se de Teresa que, ao longe, lhe acena um
último adeus, pelas grades da janela da sua cela, na torre do convento.
Teresa cai morta nos braços da camareira. Simão morre na viagem, poucos dias
depois. No funeral, a bordo, Mariana, que o seguia para o desterro, atira-se
ao mar para se agarrar ao seu cadáver e com ele morrer.
Observações:
Adaptação do romance homónimo de Camilo Castelo Branco. Terceira versão
deste romance na história do cinema português, depois da de Georges Pallu
("Amor de Perdição"), em 1921, e da de António Lopes Ribeiro, em 1943.
Terceiro filme da "tetralogia dos amores frustrados" que incluí, ainda, "O
Passado e o Presente", "Benilde ou a Virgem-Mãe" e "Francisca".
Vencedor do Prémio Especial do Júri no Festival Internacional de Cinema da
Figueira da Doz, em 1979.
"Filme produzido e distribuido comercialmente em 16 mm. Existe uma versão
ampliada para 35 mm, efectuada pela Cinemateca Portuguesa aquando da
preservação da obra.
Paralelamente à versão para distribuição cinematográfica, foi produzida uma
versão para televisão, em episódios, com metragem total de 3149 mt - 287
minutos. O negativo desta versão, em 16 mm, é composto por tomadas de vista
alternativas em relação à obra cinematográfica e engloba prólogos aos
diferentes episódios, exclusivamente filmados para a versão televisiva."
José de Matos-Cruz, in Cais do Olhar, ed. Cinemateca-Portuguesa-Museu do
Cinema, 1999.
"...a Teresa é sobretudo dissimulação. Ela simula à espera que o pai morra,
porque sabe que enquanto o pai for vivo não permite. Portanto, espera que
ele morra para depois poder ser feliz. Há uma dissimulação, de que de resto
o Camilo fala. A dissimulação é uma qualidade muito própria da mulher... Um
atributo...
atributo não... Qualidade!"
Manoel de Oliveira, entrevista com João Bénard da Costa,1989.
"Amor de Perdição é um diálogo entre o visível e o imaginário, entre o
perceptível e o imperceptível.
Adaptado de um célebre romance português do Século XIX com o mesmo título,
de Camilo de Castelo Branco, Amor de Perdição é um verdadeiro workshop de
ideias acerca da incestuosa relação entre o romance e o cinema e acerca das
várias possibilidades de adaptações literárias. Muitos dos ditos aspectos de
vanguarda do filme vêm precisamente dessa reflexão, graças à qual cada cena
acaba por se tornar numa solução fílmica de um desafio literário".
Jonathan Rosembaum, The Masterpiece You Missed, in Soho News, 3 Junho, 1981.
"Em 1978 Manoel de Oliveira completou "Amor de Perdição", projecto em que
trabalhava desde 1976. Com 4 horas e 20 minutos de duração, era o mais
arriscado projecto de Oliveira, que se decidiu por uma "adaptação total" do
romance, ou seja, uma adaptação em que nenhuma palavra fosse excluída. O que
os actores não diziam, foi confiado a duas vozes off: a do condutor da
narrativa (a que Oliveira chamou, em vez de relator, delator), e que avança
sobre a narrativa, e a que Oliveira chamou Providência. Elas dominam a série
de "quadros vivos" pasmosos com que Oliveira imobilizou e movimentou os
personagens de Camilo, mais do que nunca fantomáticos e mais do que nunca
joguetes da fatalidade que tanto se abate sobre eles.
Foi a partir deste filme que Oliveira desenvolveu a sua teoria do cinema
como meio audiovisual para fixar o teatro, conferindo à representação a
suprema instância. E, aos 70 anos, surpreendeu tudo e todos com uma das mais
radicais abordagens de adaptação literária alguma vez tentadas. O velho
sonho de Mankiewicz de um filme que pudesse exprimir o passado e o presente
simultâneamaente foi, pela primeira vez, cumprido nesta obra, dominada pela
magia do verbo e pela maestria absoluta da composição dos planos que, mais
do que qualquer outra, deu presença e ausência a toda a tradição romântica
portuguesa.
Mas "Amor de Perdição" foi em Portugal um filme de perdição. Apresentado
primeiro (devido a imposições da RTP que parcialmente o subsidiara) na
Televisão, numa série de seis episódios, as reacções foram explosivas, o que
parcialmente até se pode perceber, pois nenhuma estética era mais alheia à
estética televisiva do que a deste filme (ainda por cima rodado a cores e
projectado a preto e branco, pois não havia, à época, televisão a cores em
Portugal). Falou-se de atentado a Camilo, de ultraje à literatura
portuguesa, perguntou-se como é que o homem que fizera "Aniki-Bóbó" fazia
agora "Aniki-Gágá". Raríssimos sairam em defesa do filme até que, em 1979,
este foi apresentado no estrangeiro e objecto de universal aclamação.
Esta começou em Itália, em 1977, quando alguns filmes de Oliveira foram
exibidos na Rassegna del Cinema Portoghese, em Bolonha, e onde "Benilde" foi
alvo de entusiástica recepção. Em 1978, continuou numa retrospectiva em
Florença e em Roma, que já incluía "Amor de Perdição". "Benilde" e "Amor"
foram comprados pela distribuição italiana e Oliveira foi finalmente
reconhecido como um dos maiores cineastas vivos.
Em 1979, chegou a hora de Paris quando o distribuidor Paulo Branco o lançou
no cinema Action-Republique que então dirigia. O Monde de-lhe honras de
primeira página, pouco depois de o Festival de Roterdão o ter também exibido.
Em Portugal, começou a desorientação. Houve quem afirmasse que se tratava de
"uma campanha paga" (insinuou-se que pela Gulbenkian), houve quem
continuasse a tocar a velha tecla dos críticos loucos dos "Cahiers du
Cinema". Mas o que é certo é que, quando ofilme se estreou nas salas de
Lisboa, em Novembro de 1979, muita gente virou de bordo e descobriu na obra
os méritos que lhe havia negado no ano anterior."
João Bénard da Costa, in Histórias do Cinema, col. Sínteses da Cultura
Portuguesa, Europália 91, ed. Imprensa Nacional Casa da Moeda, 1991.
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