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Crónicas

O Condes Morreu, Vivam os Reis

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Lisboa é uma boa cidade para se ir ao cinema. Não falo por falta de conhecimento de outras cidades, ou por simples apetência pelo centralismo da capital. A verdade, essa, é que Lisboa não é só a melhor cidade portuguesa neste campo, como é uma das melhores em termos europeus, o que a faz uma das melhores em termos mundiais.    É verdade que hoje o Paris é uma curiosidade e o Condes um restaurante de comida rápida. E então? O Tempo não é estático é os imobiliários não são nada sem pessoas. E essas, há muito que já não iam ao Condes. Há que aprender com a História e defender as salas que ainda existem. É graças a elas e a nós espectadores, que, repito, Lisboa é uma das melhores cidades mundiais para se ver cinema.

Existem cerca de 160 salas na Grande Lisboa. Destas, cerca de 140 estão agregadas a Centros Comerciais. Funcionam um pouco como os espectáculos para os casinos. Estes conduzem ao jogo, como a ida ao cinema conduz ao consumo. E então? As pessoas são soberanas na sua decisão, e se no último ano novas salas despontaram como cogumelos, de que o Cascais Vila e as Twin Towers são apenas dois bons exemplos, é porque há espectadores/clientes que as justificam. Se as pessoas querem fitas americanas a 5 euros, a escolha é delas. Importa registar que há a oferta, e que tem adesão. Se todos optassem por filmes de um anónimo paquistanês, dificilmente haveria tanto público.

A PT, via Lusomundo, domina o circuito, logo seguida pelo Paulo Branco, que se mantém na corrida com salas como o Saldanha. É ele quem tambem, subsidiado, mantém salas como o Ávila. Sirva o erário público para alguma coisa. Em salas como esta reside o quinhão que completa a oferta, com requinte, e que mostra que nem uma posição dominante como a da PT impede a concorrência. O Ávila, o Nimas, o S. Jorge, fornecem boas salas com um circuito alternativo complementar.

Preços mais baratos, filmes menos óbvios. Com público. Outro, talvez, menor, sem dúvida. Mas a oferta existe e as pessoas correspondem. Temos depois as salas com ciclos. O Cine 222, e o Loreto, que deixou a pornografia para enriquecer a oferta da capital. A cereja do bolo é a Cinemateca, com as suas três salas e edifício remodelado. Por aqui passam das fitas mais emblemáticas do Século XX. Menos concorrido mas indispensá veis para o conjunto e permissa desta crónica são os institutos estrangeiros, como o Cervantes, Goethe ou o Franco-Português. Ou a Videoteca, em Alcântara, que ajuda a promover não novas tendências mas sim novos talentos. De vez em quando, alguém se lembra de promover umas exibições ao ar livre, paraíso dos fumadores e dos aderentes às novidades, porque um ‘drive-in’ ou ‘seat-in’ é sempre diferente, mesmo se o filme é a «Música no Coração».

Até o facto do Olimpia passar filmes pornográficos com títulos que promovem um sorriso rasgado a quem esteja atento são um sinal positivo. Um sinal de que a oferta é alargada e que o público tem possibilidades de sair satisfeito.

As pessoas têm aderido ao cinema, às salas, aos filmes. A oferta é vasta e, mais importante, variada. Basta procurar, estar atento. Quem se queixar de que não há bons filmes em Portugal não vê que Lisboa é hoje uma cidade muito mais rica do que há 20 anos atrás em termos de oferta cinematográfica. Mesmo se antes havia o Condes. Porque se ele morreu, alguém o deixou morrer, e o velório não foi muito concorrido. Por isso, é importante reter a riqueza actual que Lisboa oferece neste campo. E fazer com que o problema de ver um bom filme seja apenas uma questão de escolha.

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O Som do Silêncio

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Como melhorou a qualidade do som nos filmes portugueses! Lembro-me de que, ainda há não muito tempo, as fitas nacionais quase precisavam de vir legendadas. Ou então, que os espectadores fizessem cursos-relâmpago de leitura de lábios. Felizmente, hoje já não é assim. Agora só faltam os diálogos que valha a pena ouvir.

Claro, estou a brincar. Mas desde o início o som foi uma fonte de controvérsias na jovem arte cinematográfica. O cinema tornou-se sonoro, e depois falado, um pouco por acaso, porque a Warner se encontrava à beira da falência e tentou, como última cartada, uma experiência diante da qual as concorrentes recuavam, receando um desastre comercial. Bem, parafraseando o impagável produtor Samuel Goldwyn, ninguém gostou daquilo – excepto o público.

Sim, as platéias aderiram com entusiasmo à novidade, mas os cineastas e os críticos torceram os narizes. Pudovkin, Eisenstein e Alexandrov publicaram um manifesto contra o som, alertando para o perigo do «teatro filmado». René Clair também fez uma birra. Mas o mais amuado foi mesmo Chaplin: «Os filmes falados? Odeio-os! Vieram estragar a arte mais antiga do mundo, a arte da pantomima. Destroem a beleza do silêncio». OK, ele lá tinha as suas razões para achar que mais valia estar calado. É como observou mais tarde o mordaz Billy Wilder: «Quando Chaplin ganhou uma voz para dizer o que se passava na sua cabeça, foi como se uma criança pusesse uma letra na Nona Sinfonia de Beethoven».

Tratava-se, claro, de um lamentável equívoco: os mestres do mudo tomavam por trunfo o que não passava de uma lacuna. Às vezes, é verdade, a falta de som estimulava a criatividade de uma maneira cómica: no clássico «Napoleão», de Abel Gance, durante um ataque ao forte de Toulon pelas tropas franceses, todos os soldados que tocam tambores são instantaneamente mortos.
Logo se verificou que o sonoro exprimia melhor até o próprio silêncio. No sonoro, o silêncio adquiriu um valor positivo, de que estava privado na uniformidade taciturna do mudo. Assim, depois de, por exemplo, uma música retumbante, o súbito silêncio assume uma intensidade conceptual. Só o sonoro pode, por contraste, representar o silêncio sepulcral. Para não falar no minuto de silêncio (que, no mudo, eram todos).

É certo que estamos a falar de um realismo dúbio, isto é, na maior parte das vezes «pós-sincronizados», ou seja, registados em estúdio depois das imagens. Isso porque, devido aos caprichos da técnica e da física, uma parede, um vidro ou uma escada gravadas ao ar livre não produzem um som «autêntico». Por outro lado, há certos ruídos que já foram registados de uma vez para sempre: pode comprar-se, nas lojas da especialidade, um canto de galo, um bramido de ondas ou um coaxar de rãs. Só não se pode comprar é bons diálogos.

E há, naturalmente, a música. No cinema, a música pode assumir dois papéis: de ambiência ou contraponto (ou paráfrase). A primeira é, digamos, decorativa (não quer dizer que seja supérflua). A segunda pode tornar-se dramática. Se for de certos compositores que a gente sabe, tornar-se-á seguramente melodramática. Como disse o outro, a música japonesa é uma tortura chinesa.
Sem som e sem música, não haveria os musicais. E, sem os musicais (que, por ironia da história, brilharam na Metro e não na Warner), não haveria Fred Astaire. Bom, por causa de um bisonho executivo de Hollywood, que avaliou o primeiro teste do futuro maior bailarino da Sétima Arte, quase que não houve de facto Fred Astaire. Eis o veredicto da sumidade, quando Astaire acabou o seu número: «Não sabe representar. Ligeiramente careca. Dança um bocadinho».

Hoje, ninguém com cinco gramas de miolos duvida de que o cinema seja a imagem unida à palavra, ao ruído e à música. OK, cada macaco no seu galho. Frank Sinatra, por exemplo, embora tenha embolsado um Oscar de melhor actor secundário, continua a pertencer mais à música do que ao cinema. Ou, como alguém resmungou: «Tirem o microfone e a orquestra a Sinatra e o que é que lhe restaria? Trabalhar numa pizzaria!».

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O Som e a Fúria

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Há poucos dias, eis que dei por mim na entrada de um descomunal centro comercial de bilhete na mão, lado a lado com uma entusiasmada criança de 10 anos, pré-adolescente quase, ambos prestes a embarcar na electrizante experiência de «Tomb Raider 2».

Estávamos mais do que preparados para suspender a descrença durante duas horas e pular a pés juntos para dentro do universo dos jogos de consola tornados película e admirarmos os contorcionismos e os seios digitalmente aumentados de Angelina Jolie. Mas havia uma coisa para a qual nada nos preparara. E essa coisa foi o som, a fúria, os dementes décibeis que atordoaram os nossos ouvidos com a tonitruante pujança dos canhões da guerra de 14-18 ou, mais contemporâneos, os mísseis Tomahawk das guerras do Golfo.

Era demais. A criança, apesar de tudo habituada ao cacofónico estrilhar de guitarras trash-metal, tapou os ouvidos durante dois terços do filme e, mesmo assim, saiu de lá seriamente candidata a uma consulta de otorrino. Eu, por outro lado, sentia estarrecido o aumento da minha pulsação e o corpo a vibrar como uma personagem do «ER» com o George Clooney. Por momentos, apeteceu-me mesmo procurar a campainha e chamar a enfermeira, antes que fosse tarde demais e a alma se separasse do corpo num esforço derradeiro de sobrevivência.

Cá fora, apreciando o silêncio das centenas de criancinhas debicando Happy Meals e fatias de pizza, pensei no que acontecera. O que levara as salas de cinema a superarem o nível sonoro de um concerto dos Sepultura? Por que obscura e satânica razão tinham os responsáveis das salas optado por reduzir os espectadores a cobaias de experiências acústicas limite? Pretenderiam eles que os filmes fossem ouvidos do espaço e atraissem assim novos públicos desde o segundo anel de Saturno?

A resposta surgiu-me mais tarde, após duas semanas de recuperação nas termas do Buçaco, com a clareza de uma epifania: Afinal, as clamorosos ondas de choque sonoras eram a resposta natural ao chinfrim do próprio público. Às conveue não padeçam de surdez crónica.

Todos nós já tentámos certamente fazer calar algum destes exemplares com este tipo de comportamento e desistimos. Quando conseguimos, foi com certeza numa das raras vezes em que o dito cujo (são normalmente homens, vá-se lá saber porquê) estava sózinho e era mais franzino do que nós. Em geral, este tipo de gente anda em manadas e tem a compleição de um condutor de máquinas pesadas. E, entre o ruído boçal e o silêncio eterno da campa, é natural que optemos pelo primeiro.

Mas, pese embora compreender agora a estratégia dos exibidores, continuo a achar que há limites. Devem existir outras formas de educação da plateia para além de destruir-lhes os tímpanos. Quando se leva uma criança de dez anos a desejar abandonar a sala, com medo que o texto lhe caia em cima da cabeça como os conhecidos gauleses, algo está errado. Aqui fica, pois, o apelo. Ou, pelo menos, o aviso. Para a próxima vez que derem por vós com vontade de apreciar um qualquer blockbuster, levem tampões de ouvidos.