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As suas marcas são ainda visíveis hoje, nomeadamente na ansiedade de tentar
criar uma indústria de cinema num país onde ela nunca existiu.
A primeira legislação com repercussões no cinema nacional data de 1927,
ainda com a Ditadura Militar, e instaurou fenómenos como a
Lei dos Cem Metros, que tentou forçar a existência da produção nacional no
campo dos documentários. O resultado foi uma série de películas mudas,
intragáveis e repetidas até à exaustão, que eram exibidas mesmo com o
advento do sonoro. A lei, essa, acabou por ser esquecida mesmo pelos
legisladores.
Salazar, que moldou o País ao seu olhar, teve uma peça essencial nessa
missão: António Ferro
. Um homem brilhante que, através do Serviço Nacional de Informação, pecou
pelo facto de tentar impor às pessoas a sua visão do que deveriam ser os
filmes. Tal como Salazar, conhecia a força do cinema, a sua influência, a
sua capacidade de gerar realidades alternativas. Por isso reforçaram a
censura, arma que conduzia, antes de mais, ao auto-constrangimento
artístico. Usada e abusada, a censura entrou mesmo em filmes como a «
Aldeia da Roupa Branca», bloqueou centenas de filmes estrangeiros e inibiu
a criação artística interna.
Quem fosse ao cinema, tinha poucas opções: podia ver as comédias,odiadas por
Ferro mas adoradas pelo público, ansioso de gargalhadas, ou via os
documentários de propaganda disfarçada de actualidades, transportados por
todo o país pelos
Cinemas Ambulantes. A outra opção eram os filmes estrangeiros, aqueles que
Salazar, pela mão de Ferro, deixava entrar, e
obrigava a legendar. Quem fosse analfabeto, e eram a maioria, não ia ao
cinema.
Salazar parecia gostar de
cinema, e respeitava a sua força. Usava-a em seu favor, mas não permitia que
o vissem como um mortal. Para ele, o poder tinha de ser sinónimo de
sacrifício, de abnegação. Nunca entretenimento. O Presidente do Conselho
chegou a ter uma sala privada, mas raramente a usou. Quanto a António Ferro,
usou todas as armas ao seu alcance para moldar os gostos dos portugueses,
através de medidas como o Fundo do Cinema Nacional,
prémios do Estado Novo que enalteciam filmes baseados em romances
intemporais ou vidas épicas como a de Camões. Teve pouco sucesso.
Perceber os diversos aspectos do que foi o cinema português durante o Estado
Novo é um passo para entender a sétima arte em Portugal nos dias que correm.
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